sexta-feira, 27 de julho de 2007

Dos diálogos surreais



Saindo do miolo do Capão Redondo, após uma pauta sobre pessoas que perderam o olfato, seguiram-se diálogos trípticos como as fotos:
ato 1 -
Leo: E aí Zé, será que vai ser mais fácil sair daqui do que entrar?
Zé: Ah, acho que sim... Tenho uma manha, é só seguir o progresso
Leo: Como assim?
Zé: Eu vou olhando pra cima, achando poste de luz, fiação, até chegar no asfalto, nos prédios... progresso, entendeu?
5 minutos depois...
Leo: Aquele monte de fio, embolado no poste, com asfalto embaixo, é progresso?
Zé: Claro!
Leo: Não tem passarinho no progresso?
Zé: E pra que serve passarinho?
Leo: Nossa, pra tanta coisa... piar, voar... putz, nem sei dizer!
Zé: Vai dizer agora que queria florzinha também?
Leo: Claro!
Zé: Flor não serve pra nada! Só pra fazer bem-me quer...
Leo: Se fosse só pra isso eu tava ralado.
Zé: Por que?
Leo: Porque pra mim toda pétala é mal-me-quer
(silêncio)

ato 2 -
Zé: Melhor assim então, sem flor e com progresso
Leo: Bom lema pra bandeira... ao menos cai a ordem
Zé: Tu serviu o exército?
Leo: Não e cheguei atrasado no juramento da bandeira.
Zé: Ah, tá de brincadeira.
Leo: To não Zé... e no juramento ainda cruzei os dedos.
Zé: Mas então se o Brasil entrasse em guerra tu não pegaria nas armas?
Leo: Eu to em guerra há 27 anos, Zé...
Zé: Contra quem?
Leo: Contra tudo
Zé: E quem tá ganhado?
Leo: O nada.
(silêncio)

ato3 -
Zé: Mas agora fala sério, não é ruim ser assim amargurado? Não dá um vazio não?
Leo: Depende.
Zé: Ué, depende de quê?
Leo: Da hora, que horas são?
Zé: Meio dia e cinquenta e cinco
Leo: Então pára no próximo bar, a gente almoça e o vazio se vai.

ato 4 - desfecho
Zé: E esse aí que tu fotografou, não cheirava também?
Leo: Nem sentia gosto.
Zé: mas sabe que outro dia eu li na folha mesmo, que na França, um cara não tinha célebro e vivia bem.
Leo: Sem cérebro Zé????
Zé: na verdade ele tinha só as laterais no crânio... como carne de coco sabe?
Leo: Ah Zé... isso aí saiu no Agora, não na Folha...
Zé: Saiu na Folha Ciência... acho que eu tenho aqui.
(procura)
Zé: Aqui ó! Na folha dessa segunda!
Leo: Caramba! 71 de QI, 42 anos, casado e dois filhos!
Zé: Viu, eu não disse! E tu aí, achando a vida ruim e querendo florzinha
Leo: Pois é Zé, não ter cérebro pode ser uma dádiva!

4 comentários:

Lua disse...

Gosto demais dos seus diálogos, Aquilinha. Você é bom nisso. Aposto que se as pessoas todas tivessem a chance de publicar um diálogo, a maioria seria bem desinteressante. Com você é diferente. E tem umas indagações quase infantis que muito me agrada. Te permite descobrir sempre. Bjos

Anna Carolina Negri disse...

simplesmente entendi e me identifiquei... tá na hora de eu achar as outras pétalas, viu...

Anônimo disse...

Também Li esse barato na Folha!
Ae Leo fodão os barato sucesso e paz pois até no lixão nasce flor abraço irmão!
Vamo esmurruga

lufec disse...

dear, lembra que os dialgos sao os meus prediletos? adoro adoro. esse foi incrivel, mas pegou na espinha, ne. meio triste demais... beijoca