terça-feira, 31 de julho de 2007

o incrível homem formiga





Minha mãe diz que poesia não enche a barriga,
Meu pai diz que minha música enche o saco
Você diz que minha foto tá fora de foco
Tudo pra que eu fique do tamanho de uma formiga

sobre a cobiça



Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!
(Charles Chaplin - O grande ditador)

domingo, 29 de julho de 2007

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O cara saiu pra trabalhar pelo segundo final de semana consecutivo.
As costas já doíam...
O frio veio também atrasado, afinal, o cara já estava lá há dois anos e o minuano só agora resolvera aparecer.
Atravessou a São João olhando o relógio. Tinha 5 minutos para andar 4 quadras.
Um mendigo passou de bermuda, camiseta e sacos de pão nos braços fazendo as vezes de mangas longas...
O cara deu três passos, tirou a jaqueta, tirou o blusão, recolocou a jaqueta e foi atrás do mendigo.
Atravessando a São João, sentido oposto do trabalho, disse:
"ô meu velho, tá frio hj"
O mendigo continuou caminhando
"ó, pega essa blusa pra ti"
O mendigo continuou caminhando
O cara resolveu ir pra frente dele e oferecer o blusão
"Ó, isso aqui vai te aquecer, jão"
O mendigo parou, olhou pra ele e continuou caminhando

O cara voltou a seguir seu caminho sem entender muito. Não colocou o blusão de novo e sentia frio. Na porta do bar da esquina um caboclo de 50 e poucos ganhava a rua depois de longa madrugada... chorava, olhava para alguém ainda dentro do bar, apontava, tentava falar, soluçava e voltava a chorar...
O cara não costumava ver homem feito chorando, nem passando frio.
Chegou na porta do jornal abalado, em algum momento dos 20 minutos de trajeto, havia perdido o ponto de equilíbrio.

sábado, 28 de julho de 2007

as better as it gets



You hand in your ticket
And you go watch the geek
Who immediately walks up to you
When he hears you speak
And says, "How does it feel
To be such a freak?"
And you say, "Impossible"
As he hands you a bone

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Dos diálogos surreais



Saindo do miolo do Capão Redondo, após uma pauta sobre pessoas que perderam o olfato, seguiram-se diálogos trípticos como as fotos:
ato 1 -
Leo: E aí Zé, será que vai ser mais fácil sair daqui do que entrar?
Zé: Ah, acho que sim... Tenho uma manha, é só seguir o progresso
Leo: Como assim?
Zé: Eu vou olhando pra cima, achando poste de luz, fiação, até chegar no asfalto, nos prédios... progresso, entendeu?
5 minutos depois...
Leo: Aquele monte de fio, embolado no poste, com asfalto embaixo, é progresso?
Zé: Claro!
Leo: Não tem passarinho no progresso?
Zé: E pra que serve passarinho?
Leo: Nossa, pra tanta coisa... piar, voar... putz, nem sei dizer!
Zé: Vai dizer agora que queria florzinha também?
Leo: Claro!
Zé: Flor não serve pra nada! Só pra fazer bem-me quer...
Leo: Se fosse só pra isso eu tava ralado.
Zé: Por que?
Leo: Porque pra mim toda pétala é mal-me-quer
(silêncio)

ato 2 -
Zé: Melhor assim então, sem flor e com progresso
Leo: Bom lema pra bandeira... ao menos cai a ordem
Zé: Tu serviu o exército?
Leo: Não e cheguei atrasado no juramento da bandeira.
Zé: Ah, tá de brincadeira.
Leo: To não Zé... e no juramento ainda cruzei os dedos.
Zé: Mas então se o Brasil entrasse em guerra tu não pegaria nas armas?
Leo: Eu to em guerra há 27 anos, Zé...
Zé: Contra quem?
Leo: Contra tudo
Zé: E quem tá ganhado?
Leo: O nada.
(silêncio)

ato3 -
Zé: Mas agora fala sério, não é ruim ser assim amargurado? Não dá um vazio não?
Leo: Depende.
Zé: Ué, depende de quê?
Leo: Da hora, que horas são?
Zé: Meio dia e cinquenta e cinco
Leo: Então pára no próximo bar, a gente almoça e o vazio se vai.

ato 4 - desfecho
Zé: E esse aí que tu fotografou, não cheirava também?
Leo: Nem sentia gosto.
Zé: mas sabe que outro dia eu li na folha mesmo, que na França, um cara não tinha célebro e vivia bem.
Leo: Sem cérebro Zé????
Zé: na verdade ele tinha só as laterais no crânio... como carne de coco sabe?
Leo: Ah Zé... isso aí saiu no Agora, não na Folha...
Zé: Saiu na Folha Ciência... acho que eu tenho aqui.
(procura)
Zé: Aqui ó! Na folha dessa segunda!
Leo: Caramba! 71 de QI, 42 anos, casado e dois filhos!
Zé: Viu, eu não disse! E tu aí, achando a vida ruim e querendo florzinha
Leo: Pois é Zé, não ter cérebro pode ser uma dádiva!

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Tchê!




Tchê é uma expressão de tratamento unificante entre os povos gaúchos, sejam estes do rio grande do sul, uruguai ou argentina e significa algo como cara, moço, mas de uma forma muito carinhosa - já que é herança dos guaranis, onde quer dizer amigo.

Claro que por meus estrangeirismos múltiplos, sinto falta de tudo que nunca está onde estou - mas do tchê sinto uma falta um tanto maior... que vem dessa distância de onde nasci.

Ontem conheci Tiê, um apaulistamento de tchês. Meiga e querida, foi fotografada no jardim de sua casa. Despretensiosamente me falou sobre o ep que me entregou. Conversamos sobre a captação de áudio ambiente, da estética dos "mini-sons" e nos despedimos...

Na redação, enquanto editava as imagens que iriam para a Ilustrada de amanhã, coloquei o "e.p.1" para rodar (sugiro que todos façam o mesmo acessando: http://www.myspace.com/tiemusica) e digo sem rodeios, fiquei extasiado com o que ouvi! Em português, francês ou inglês - Tiê é sem dúvida minha maior descoberta musical do ano.

Descoberta tão casual quanto encontrar alguém que não se vê há tempos e deixar escapar um "-Tchê, que saudade!"


obs: Tiê é a parceira musical de Dudu Tsuda no Cabaret e mais sobre ela pode ser descoberto no site http://www.tiemusica.com/


obs 2: Ouça "passarinho" - sozinho, luzes apagadas e nos fones de ouvido... prazer garantido ou sua vida sem graça de volta.


obs3: Dica para os músicos. escutar a música acima da mesma forma, porém acompanhado de uma guitarra no colo para contribuir com mais "mini-sons" à canção.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Militando emoções




Nunca fotografei uma missa antes.
Uma com padres, monges, rabinos e militares então, pareceu-me uma cena digna de David Lynch...
Nem todas as emoções são sinceras em uma celebração desse tamanho. Os textos que se publicam, podem ser menos sinceros ainda...

domingo, 22 de julho de 2007

Esquecer e querer ver

Das coisas curiosas que te passam pela frente, ficam registro. Quando não são meramente mentais, são captados por uma objetiva, especialmente se esse for o teu trabalho.
Elisié Pedrosa quer esquecer a tragédia com o vôo da TAM. Nele estava seu único filho Gabriel Correia Pedrosa Jr. Me mostrou uma foto dele e disse que daqui não levaria nada do filho e isso que doía mais.



Já para muitos paulistanos, ir ao local do desastre foi o programa dominical. Famílias inteiras vieram das partes mais remotas da cidade. A curiosidade as trouxe e sei lá qual outro sentimento as fez ficar. A barraquinha de cachorro-quente vendeu bem, assim como o café, os refrigerantes...
E a vida segue, mesmo pra quem não tem como seguir



I´m the wrong kind of person to be realy big and famous


what´s the point of playing a song badly?

...









sexta-feira, 13 de julho de 2007

Tremendo






Embora ainda queira fazer um suspense com o resultado das minhas duas semanas de férias, não consegui atualizar o sobrou com outras fotos que não fossem essas duas.


Duas ilustram a "invasão" de sábado ao treme-treme, também conhecido pela alcunha de edifício São Vito. O prédio fica atrás do Mercado Público e já abrigou mais de 3.000 moradores, embora se encontre desocupado há mais de 2 anos. São 27 andares, com 624 quitinetes e mais a escadinha do lado de fora para se chegar ao 28° e encontrar a caixa d´água tomada por uma imensa cabeça dos Gêmeos. (prometo fotos da cabeça quando for postar mais imagens desse projeto).


A terceira foto, noturna, marca o início de uma sessão de quinta, logo depois do encontro no point da Galeria Olido. O rolê incluiu passagens pela República e Santa Cecília antes de subir o Minhocão. A foto registra a caminhada inicial, em busca das telas urbanas a serem riscadas.

O projeto de registrar o pixo vai seguindo, sem data para acabar, mas com uma sessão marcada pra este sábado.


Que venha a Cohab Artur Alvim e os trens da estação Ipiranga!

quinta-feira, 5 de julho de 2007

oitavo



Enquanto o corpo caía, do oitavo andar, nem parecia ser meu

Talvez fosse a sensação de não ter peso... primeira vez.

percebí isso quase na janela do sétimo... solta.


O sexto me foi um convite a abrir os olhos...

é mais fácil pular de olhos fechados


No quinto, abri... e era linda a vista do céu que se afastava

é mais prático pular de costas


o quarto, já era metade de minha despedida

pensei em virar para olhar de frente a quem me assistia

mas as nuves estavam lindas no meu último dia


do terceiro já nem sei,

foi o andar breve de um suspiro


no segundo senti uma certa culpa

era tão simpática a dona gracinda

que naquela idade não merecia estar chorando na janela


no primeiro, olhei gracinda e ri

acabou o choro

acabou a culpa


Encontrei meu térreo como quem encontra a cama macia,

recém feita

e deixe-me deitar

nunca tive sonhos tão bons...

terça-feira, 3 de julho de 2007


Phedra de Cordoba normalmente já pararia o trânsito. Às vésperas da 11° parada do orgulho gay então, a Avenida Paulista realmente parou para vê-la desfilar. A luz estava linda. Dois sóis se descortinavam deixando o calçamento de pedras portuguesas digno dos tijolos dourados de OZ. Phedra acenava para a multidão que gritava e assobiava enquanto esperava sua vez de atravessar em frente ao conjunto nacional.
Enquanto clicava, vi claramente em meu visor quando uma das fotos se destacou... tinha um quê de estátua da liberdade, dava glória ao movimento GLBT em meio ao palco de sua Paulicéia Desvairada. Phedra também sabia que a sessão tinha sido mágica e adorou ao ouvir que naquela tarde havia feito um dos retratos mais bonitos de minha curta carreira.



Já Facundo, representava o S, da antiga sigla GLS - hoje GLBT. No vão livre do MASP fotografamos numa quarta-feira, dia em que a visitação ao museu se destina a escolas do estado. O vão livre sempre me traz boas memórias, enfim, é um dos melhores lugares para se fumar em São Paulo sem ser inportunado pela PM. Logo que cheguei lembrei porque não ia nas quartas-feiras... Não é que eu não goste de crianças, mas elas falam demais, alto demais e andam em número demais em grupos demais. Adicione a estes fatores o coeficiente galo. Sim, inspirados em uam clássica foto de Salvador Dali, Facundo teria um galináceo em seu ombro. Em certo momento, o galo decide que não iria mais participar da festa, salta - não antes de ficar belo no clique exato. Corre pelo vão livre atraindo milhares de crianças em sua caçada. Quem viu o filme dos trapalhões na sessão da tarde onde Didi e companhia correm atrás de galos para treinar o bom futebol, podem ter um leve visão da cena. Mas claro, as crianças eram muitas, faziam barulho e o galo se assustava. "Voou" até o parapeito do Masp, olhou pra baixo - cheguei a pensar em quantos minutos duraria um galo solto perto da paulista e antes de conseguir um numeral, o galináceo baixou a crista e resolveu voltar. Fizemos mais algumas fotos, mas a do pulo certamente foi a melhor do dia.

O que não arde, queima.



Leo: - Pedro, posso te fotografar trabalhando?
Pedro: - Mas assim, roupa suja?
Leo: - Ué, mas não é tua roupa de trabalho?
Pedro: - Que é, é... mas...
Leo: - Mas o quê?
Pedro: - Mas eu não entendo fotógrafo de hoje em dia. Meu vô tinha uma câmera e cada vez que colocava filme nela, só fotografava a gente quando estávamos de banho tomado e roupa boa...

silêncio

Leo: - Mas é que nessa não vai filme, é digital!
Pedro: - Ah, então aí pode né...