quarta-feira, 2 de maio de 2007

Idiossincrasias

Aprendi essa palavra, idiossincrasia, quando li um texto do Drummond chamado "Eu etiqueta" . Na época achei o máximo esse poema. Hoje minha ironia já está mais pra Bukowski do que pra Drummond, embora siga amando aquele que um dia encontrou uma pedra no meio do caminho.
Para os desavisados, idiossincrasia significava aquilo que é teu e somente teu, sem ter a menor relação com posse. Deixo a explicação menos subjetiva ao Michaelis:
1 Med - constituição individual em virtude da qual cada indivíduo sofre diferentemente os efeitos de uma mesma causa. 2 psic - qualquer detalhe de conduta peculiar a um indivíduo determinado e que não possa ser atribuído a processos psicológicos gerais, bem conhecidos.
Passei, a partir do conhecimento deste significado, a tornar-me um idiossincrático convicto.
Dia desses creio ter conhecido outro membro deste "clube". Estava fotografando para a matéria de capa da revista da Folha que seria sobre esquecimentos. O "link" para esse artigo era o caso do pai que esqueceu o filho dentro do carro. Pois bem, assunto delicado, não queriam tocar muito no caso do pai, embora esse fosse o argumento central da matéria e deram o título de capa: "Deu branco". Até onde sei, só se dá um branco quando se está tentando lembrar de algo. Eufemismo estranho este, ao meu ver. Mas esse não é meu ponto central. Estava eu já indo pra casa, expediente fechado às 18:00, quando me ligam pedindo uma foto para as 18:45. Resolvo fazer. Sigo para Moema, meu antigo bairro (saudades das idiossincrasias dos 15 anos) e chegando lá a foto é atrasada em uma hora. Ligo pra redação, penso em pedir um outro fotógrafo pra pauta, mas acabo ficando, o que foi um acerto gigantesco. Acerto pois conheci David Calderoni, psicanalista extremamente gentil e inteligente. Daqueles profissionais que observamos em ação e percebemos na hora que fazem exatamente aquilo para que nasceram, embora eu não acredite em dons inatos.
Subi ao seu consultório enquanto ele ainda trabalhava com seu paciente Fernando, menino novo, entre 7 e 9 anos. Já na recepção Fernando me pergunta de que jornal eu era, se aquela câmera que eu usava era a câmera do jornal e logo depois me mostra uma escultura feita em massinha colorida que estava junto de sua mãe. "Essa é a cópia", afirma com convicção de Rodin.
Dentro da sala ele me mostra o original, numa escala de 3 ou 4 pra 1. Nunca pensei que nessa idade alguém pudesse entender proporções. Beirando a genialidade Fernando discorre sobre o sentido de sua obra, um vulcão com um sereia, enquanto fotografo a ele e David. Muitas vezes me perguntava sobre a fama, o pequeno. Eu, tão contrário as personalidades de minuto (sim, sim, ainda me orgulho de ter negado a cobertura fotográfica do aniversário de Rico Mansur), vejo-me tímido em tentar responder à altura daquela mente tão livre.
Encerramos essa seção dupla de fotos e permaneço no consultório para fazer as individuais de David. Enquanto clicava, conversamos sobre a irredutibilidade do ser e ganhei de presente um livro escrito pelo próprio psicanalista e com uma linda dedicatória que, apesar de ser pessoal, externo para que o âmbito deste encontro seja devidamente compreendido: "Para Leo que ama o singular".
Depois de discorrer sobre minhas diversas mudanças de cidade e até de país e sobre como criei raízes comigo mesmo (sim, parecia que eu estava em análise tamanha foi minha capacidade "confessional"), David pegou o violão enquanto eu guardava os flashes e toda parafernália que sempre levo em duas mochilas para fotografar. Trilhos urbanos foi a escolhida. Fazia tempo que eu não escutava o Caetano. Caiu como uma luva pra fechar minha "sessão".
O mais engraçado de tudo é que, alegando falta de espaço na matéria, o artigo escrito por David Calderoni não entrou na revista, assim como as fotos.
Faço ambos presentes aqui no sobrou, para que a produtividade daquele dia não fique restrita a mim.

A PSICANÁLISE E O TEMPO DOS ESQUECIMENTOS

Esquecimentos que parecem absurdos, impossíveis e inexplicáveis podem sim acontecer com qualquer pessoa. Desde os seus primórdios, a psicanálise afirmou e procurou fundamentar essa idéia.

Esquecimentos desconcertantes que surpreendem pessoas normais em meio aos seus afazeres diários são abordados no livro em que Freud introduz uma explicação geral e sistemática desses fenômenos: Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana, lançado em 1901. É justa a popularidade da obra, pois oferece ao homem comum a possibilidade de encontrar em mecanismos psicológicos universais uma explicação convincente para os chamados lapsos ou atos falhos, designações que englobam perturbações da memória, da linguagem e do controle motor.

Segundo o mecanismo básico proposto por Freud, os lapsos ocorrem quando um desejo inconsciente adquire intensidade maior que a das forças que o reprimem, levando a pessoa a agir de modo contrário à sua vontade consciente, pois causaria mais desprazer agir conforme o figurino. Mas Freud frisa que quanto maior é o estranhamento diante do ato falho, tanto maior é a dificuldade em descobrir qual é o desejo inconsciente. Isso porque, para driblar a censura erguida pelas forças que o reprimem e com ele conflitam, o desejo inconsciente acaba se expressando mediante formas disfarçadas. Isso significa que se eu esqueço de dizer um polido não ao responder se quero a última guloseima da mesa, a intenção inconsciente pode ser imediatamente descoberta e facilmente reconhecida, pois não está em jogo uma grave transgressão. Porém, se eu esqueço de seguir uma regra de segurança e provoco um sério acidente que afeta entes queridos, isso não significa necessariamente que havia um desejo inconsciente de machucá-los. A investigação da natureza dos desejos em jogo, conforme a regra fundamental da clínica psicanalítica, chamada de livre-associação, requer o esforço consciente de suspender qualquer julgamento moral, lógico ou estético sobre os pensamentos e os sentimentos da pessoa engajada nessa investigação.

Evidentemente, há esquecimentos para os quais a psicanálise não tem uma teoria explicativa pronta. No fatal esquecimento dos bebês, os pais apontaram a quebra da rotina como causa ocasional das tragédias, o que sugere a meu ver a necessidade de se pensar numa teoria psicanalítica do tempo social.

De fato, não só pela coincidente alegação de quebra de rotina, o tempo é um fator notável nas tragédias do consultor de academias Carlos Alberto Legal e do biólogo Ricardo Garcia: ambas as crianças tinham pouco mais de um ano; as duas fatalidades ocorreram com intervalo de um ano, no início do outono. Além disso, seja indo à academia, seja buscando dormir sob intensa cefaléia, o lapso do esquecimento abriu um intervalo de tempo para que os pais pudessem cuidar de suas urgências pessoais.

No tempo em que predomina a luta de todos contra todos, a rotina sulca estratégicas trincheiras entre o cuidado de si e do outro. Invólucros dos esquecidos, os carros são os veículos de distribuição destes tempos, entre cujas passagens as crianças desapareceram. Minha hipótese é que a quebra de rotina contrapôs o cuidado do filho ao cuidado de si, num contexto em que o modo de existência e de acumulação social da riqueza implica uma luta incessante contra o invisível e impessoal ladrão dos tempos da delicadeza, da solidariedade, da amizade e do amor, ocasiões em que o cuidado de si e do outro se alimentam reciprocamente. Em outro tempo e espaço, talvez possamos desenvolver essa direção de idéias.



David Calderoni é membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, doutor em Psicologia pela USP e professor do Curso de Especialização em Psicopatologia e Saúde Pública FSP-USP. Publicou “O Caso Hermes: a dimensão política de uma intervenção psicológica em creche”. Contato: www.davidcalderoni.art.br

Um comentário:

Ana Claudia disse...

David Calderoni parece viver nos tempos da delicadeza, da solidariedade, da amizade e do amor. Elementos raros e maravilhosos! Que bela matéria, que nos dá a oportunidade de receber aquilo que não foi e acabou vindo...