terça-feira, 15 de maio de 2007

Enloucrescimento



Leo: Tu sabia que toda a vida na Terra veio dos cometas? O planeta não tinha água, nada... foram os cometas que a trouxeram. Depois, os mesmos cometas vieram com os aminoácidos, que em ligação formam as proteínas, que por sua vez são as bases estruturais da forma humana e da maior parte das formas vivas.

Lucia Carolina envia Run.mp3

Leo: Aliás, 30% da água na Terra veio do cometas, o que faz com que nós sejamos 1/3 cometa. Passado esse deslumbramento inicial, lembrei que há exatos 10 anos, uma seita californiana chamada Heaven´s Gate cometou suicídio coletivo. Ao todo foram 39 pessoas que se mataram na passagem de um cometa, que - segundo eles - era uma nave que destruiria a Terra.

Lucia: Mas tu vai falar sobre cometas ou seitas?

Leo: A vida começou na terra duas vezes, aleatroiamente, por causa dos cometas e se eu fosse me ater a falar sobre eles, demoraria muito – logo, fico com a seita... Na verdade não sobre ela em si, mas sobre a demência, falta de sanidade... especificamente mental.

Lucia: Sempre tive uma mistura de nojo e interesse pelas histórias destas seitas...

Leo: Mas tu lembra dessa em específico, com um líder careca e orelhudo?

Lucia: Sim, lembro...

Leo: Pois então, achei os vídeos dele no youtube... falando sobre o fim de tudo, sobre como a Terra iria terminar e a salvação seria o suicídio para ressurgir dentro de um nave, livres! O cara era realmente louco. O engraçado é que venho tendo umas pirações... aliás, sempre nutri uma fascinação romântica pela loucura.

Lucia: Acho que entendo.

Leo: Sim, tenho certeza que entendes, pois é fácil, tem a ver com a história de todos os gênios criadores estarem sempre à beira da loucura. Não que esse cara tenha sido um gênio, mas no mínimo ele merece crédito por ter acreditado na sua loucura.. chegando ao suicídio.

Você recebeu C:\Documents and Settings\Leo Caobelli\Meus documentos\Meus arquivos recebidos\Run.mp3 com êxito de ° carolina, francesa maloqueira.

Leo: Já a loucura nas artes é a de acabar caindo mesmo... em um abismo dessa demência. Uma coisa esquizofrência, meio Syd Barret. A criação tomando conta do criador. Aliás, me cobra de te mandar um dvd sobre o Ryan Larkin.
Na década de 70 esse cara, canadense, fez uma animação chamada Walking e foi indicado ao oscar. Acabou perdendo para Fantasia, da disney. Ele foi na premiação vestido normal, meio hippie, como era... ele brinca de dizer que perdeu pois fois desqualificado pela vestimenta.
Nessa mesma época ele atingiu o auge da criação, produzindo mais dois curtas de animação. O caminho seria a contratação por um grande estúdio e uma bolada preta no caixa. Mas aí o cara “surta”, não que vender sua arte e prefere perder tudo... é uma opção pessoal, o cara larga tudo e vai parar na rua, pois nela ele pode\observar as pessoas, já que isso é o que o encanta... como as pessoas se movem, como balançam os braços, como dançam em sua cabeça

Lucia: mas por estes loucos assim o que eu sinto é diferente... um respeito misturado com ... como se ele fosse outra espécie que nao humana... ou um humano mais elevado

Leo: Exato! O bukowski tem um texto que é muitas vezes juvenil demais, pois é o adorado por todos de 15 anos. “jogue os dados”, conhece?

Lucia: Nunca li Bukowski.

Leo: Nesse poema ele fala sobre ir até o fim. Como se aconselha-se alguém desaconselhando. “Ok, você quer ir, vá – mas não pára no meio do caminho” e dessa forma ele diz uma coisa linda: “se você for tentar, vá até o fim. isso pode ser perder namoradas, esposas, parentes, empregos e talvez sua cabeça. vá até o fim . isso pode ser não comer por 3 ou 4 dias. pode ser congelar em um banco da praça. pode ser cadeia, poder ser o ridículo, chacota, isolamento. isolamento é a benção.”

Lucia: eu nunca vou até o fim das coisas, tu não sabe como isto pra mim é um desafio e como me é fundamental, como quando aprendi a andar, falar, respirar oxigenio

Leo: pois, eu em muitas coisas não passo da metade e sei que o caminho é o que importa, nem sempre o ponto final... mas ele não me parece falar sobre isso, mas sim sobre o cara que vai até o fim, da criação, perde a sanidade, o emprego, a família e dorme no banco da praça... sobre o cara que, não vira um gênio, mas assume o gênio que já tem... enlouquece, porque não vê mais as coisas como elas são pra todos

Lucia: Ele não enlouqueceu, ele construiu um universo dele e agora esta morando lá

Leo: Isso... mas olha só, essa coisa toda que eu critico na dita normalidade, mas ao mesmo tempo consigo segui-la quando me convém... isso perde qualquer foro de vantagem pra quem realmente estabelece uma genilaidade

...

Leo: Lembra quando te falei sobre a diferença entre ser uma ilha ou iceberg? Que a maior parte das pessoas é o continente: nasce, cresce, se reproduz e morre... assim, como quem respira e isso basta. Quem pensa um mínimo já sai dessa continente e vira ilha ou iceberg, lembra?

Lucia: Sim.

Leo: Ilhas são bonitas, atraentes e as pessoas querem visitar. Já os icebergs não. Ilhas são estáticas, icebergs se movimentam; ilhas são quentes, icebergs, frios. Um gênio, louco, é iceberg... se movimenta, pois não se contenta em ficar parado. ele não atingiu nenhum estado, ele é seu estado... e mais do que isso, pois esse estado pode ser mutável, já que não importa a ele fazer coerência, basta que ele o seja, pra si.

Lucia: O corpo dele é extenso, não é mais particular... o corpo dele são as sensações que ele percebe pelo unverso dele. Mas o louco sabe que está num iceberg. Ele sabe que não tem mais ninguém ali.. e é triste por isso, sozinho

Leo: Sim, mas essa solidão da loucura que me é romântica... engraçado ver romance em solidão, mas é isso mesmo. Como a Camille Claudel com o Rodin... mas tu já não a ama mais.


Conversa realmente ocorrida ainda hoje, em algum intervalo de tempo e espaço entre a loucura e os afazeres domésticos, como lavar a pilha de louça suja acumulada do final de semana.



As fotos são da III Bienal do Mercosul, realizada em 2001, no Hospital Psiquiátrico São Pedro.

2 comentários:

Interaubis disse...

ilhas deixam boas lembranças nos outros, icebergs deixam
a si mesmos no oceano enquanto vão vagando por aí e derretendo.

gosto muito desse tipo de imagem, de fotografia mental.

cheguei no seu blog pelo blog da http://lulu-diariodalulu.blogspot.com/
aliás vou fazer Vj na festa que ela vai dar no sábado agora...se estiver por São Paulo, apareça.

ju. disse...

e tu gostou da música do snow patrol que ela te mandou?