segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Experienciando



Leo: Esse festival tem um clima meio burguês. Do público aos prédios que circundam o parque Burle Marx tudo é, ou ostentação, ou ativismo de boutique. No fim das contas, essas iniciativas têm validade?
Blue: Pra mim o importante é ter verba pra aplicar na periferia. Já vi muito projeto bom, muita ONG bacana sendo enterrada antes mesmo de funcionar por falto de grana. Tô aqui pelo terceiro setor, pra fortalecer a idéia e conseguir tocar os projetos aqui na sul... Sei o que meu filho poderia ser se eu não fosse dos Racionais, então é bom poder buscar grana pra molecada toda.
Leo: Mas tu acha que o empresário que contribui solta essa grana pra dormir tranqüilo ou ele se interessa em vivenciar a periferia através dos projetos?
Blue: Ah, daí são duas questões. Primeiro eu não tô muito preocupado com o quê o carinha tá pensando, eu sei que a molecada precisa da grana pra tocar os projetos e é a isso que tô me ligando... Depois, a perfifa, a favela, são coisas recicláveis... gente que entra e sai toda hora, camarada que morre, gíria nova todo ano... A favela muda tanto que não tem nem como tentar passar isso pra quem não é de lá
Leo: É uma coisa que se experiencia...
Blue: É, mas sem palavra bonita

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Um só herói







Dia 22 de novembro, recebi como ultima pauta, uma visita até o salão nobre da Assembléia Legislativa de SP para fotografar homenagem a Mendes Júnior, capitão da Polícia Militar morto em combate, no ano de 1970, por Lamarca.
O evento foi dotado de pompa política. Há não mais de um par de dias, Paulo José, ou somente Pajé havia me alertado: "Se a esquerda desse país já é de direita, imagine a extrema direita!". Na ocasião cheguei a rir, mas ali, naquele salão da Assembléia estava a nata da Rota e todo tipo de "poder repressor" que só um estado do tamando de São Paulo pode produzir e garanto que a perspectiva não é muito humorística.
A primeira fila era de uso exclusivo de crianças da rede pública treinadas como macaquinhos por uma professora nordestina para cantar o orgulho de ser paulistano no hino da polícia militar. A banda da PM ocupava o coreto no mesanino e emendou o hino nacional com o hino da instituição pois, segundo o sargento: "deveriam estar o mais breve possível nas ruas, realizando patrulhamento ostensivo e garantindo a segurança dos cidadãos de bem". Nunca me senti um cidadão de bem, talvez por isso tenha deixado escapar um sorriso abreviado que logo ganhou olhares de reprovação do atual capitão da Rota... e Rota é meio "faca na caveira", melhor parar de brincar.
Sobe ao palco, sim havia um palco de cerimônia, o ilustre deputado e ex-comandante da Rota Conte Lopes e aqui permitam-me a devida apresentação. Conte Lopes é um sujeito orgulhoso. Orgulha-se do fato de ter sido a Rota, unidade que ajudou a formar, o grupo responsável pelo treinamento inicial do Bope carioca. Orgulha-se também de seu livro "Matar ou Morrer", no qual relata as principais ocorrências de sua vida policial em resposta ao "Rota 66" de Caco Barcellos, orgulha-se de seu programa "Ronda da cidade" que agora é transmitido via internet e orgulha-se, especialmente, por ser presidente da comissão de segurança pública do estado.
Disse ele:
"Uma história não pode ter dois heróis. Lamarca foi um bandido, um terrorista, um comunista! Nosso herói foi Mendes Júnior e aqui estamos para embargar a promoção de Lamarca e promover o verdadeiro herói de capitão a coronel Mendes Júnior!... Aqui nesta casa o PT me convidou para assistir um filme sobre Lamarca e, claro, recusei. Recusei pois pensei que no dia em que eu passasse pro outro lado, queria estar íntegro, encontrar Mendes Júnior e ter minha consciência tranquila"
Pensei em como um policial da Rota poderia ter consciência tranquila aqui, lá ou ainda mais embaixo. A homenagem seguiu. Enfileirados no palco diversas autoridades e uma quantidade incalculável de medalhas reluzentes. Patentes e condecorações, pensei.
Me viro para trás e vejo Sd PM Paraíba, conforme sua insígnia. Exacerbadamente adornado virou alvo das minhas fotos e bastou uma olhada pela tele para descobrir que mais da metade dos penduricalhos eram buttons promocionais que iam de distintivo da CBF a santinho eleitoral.
Um PM me aborda e dá a dica de que o Paraíba já está louco, não merecia atenção e sugere que eu me vire novamente para o palco onde o grande Conte Lopes está a terminar seu discurso.
Olho para as criançinhas da primeira fila e, assim como elas, me sinto deslocado e com sono. Era hora de ir pra casa e agradecer Drummond que, por ter-me ajudado a ser gauche, fez daquela lua e daquele conhaque motivos suficiente para me colocar comovido como o diabo.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

4 - 1 = 3



Digão: O casório é sábado?
Bart: É sexta.
Digão: Não velho, acho que é sábado.
Leo: Bom, eu não recebi convite.
Bart: O Pajé vem na sexta.
Leo: E hoje, que dia é?
Digão: Quinta.
Leo: Utz... então é amanhã!
Digão: Não, é sábado.
Bart: Eu acho que é sexta.
...
Bart: E presente, a gente dá alguma coisa?
Leo: A gente podia comprar algo.
Digão: Ou então deixar quieto...
Leo: É, eu to meio falido.
Bart: Eu não to melhor.
Digão: Nem me fala em grana!
Leo: Aliás, tu tá me devendo né?
Digão: Pois é, pula essa...
Bart: E ai, o que a gente faz?
Leo: Pede outra!
Digão: Ô, mocinha, favor... Traz outra Brhama?
Leo: E pendura!

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

mágica de cozinha


Lara: ô fotógrafo, sabia que eu tenho um bicho que ninguém tem...

Miguel: O nome dele é Leo, Lara.

Lara: Tá, hein Leo, quer ver meu bicho?

Leo: Quero sim... acho

Lara: Tá aqui ó!

Leo: Que legal. É galo ou galinha?

Lara: É...é...

Miguel: por enquanto é frango

Leo: Ah, entendi. Eu já tive um assim. Ganhei na feira de filhotes, ainda pintinho

Lara: A Bibi também, era pintinho amarelo... daí virou branco

Miguel: Mas o que aconteceu com o seu frango?

Leo: Quando virou galo a gente deu pra empregada

Lara: E o que ela fez?

Leo: Transformou o galo em sopa

Lara: Ah, que mentira... e ela era mágica pra transformar galo em sopa?

Miguel: Não, ela era cozinheira!

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

dialogando um monólogo












Leo #1: Sabe porquê começamos a fotografar?

Leo #2: Não sei nem porquê começamos a dialogar.

Leo #1: Acho até que as coisas estão interligadas...

Leo #2: Por que?

Leo #1: Porque gostamos de contar histórias.

Leo #2: Percebi isso montando o portfolio para apresentação na Folha. Agora tem mais foto de gente do que de ambientes... acho que antes tu preferia fotografar o homem sem homem.

Leo #1: Tu também.

Leo #2: Lembra que, no primeiro emprego como fotógrafo o chefe te chamava de retratista?

Leo #1: Sim, o Olívio Dutra.

Leo #2: Acho que a gente virou isso mesmo, retratistas.

Leo #1: Eu ainda prefiro contador de histórias.

Leo #2: Eu também.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Tecnologia



Leo: Opa, posso fazer uma foto sua?
Sambista: Claro meu amorrrrr...
(depois da primeira foto)
Sambista: Mas eu não tenho que ficar de frente pro sol?
Leo: Não, eu dou um jeito nisso.
Sambista: Melhor. E tá gostando do som?
Leo: Sim, só a velha guarda...
Sambista: É, hoje em dia ninguém mais gosta de coisa antiga, só quer saber de tecnologia.
...



Leo: Tudo pronto com a luz, vamos lá
Vito: Mas não vai ficar escuro, assim contra o sol?
Leo: Não, nisso eu dou um jeito.
Vito: Então tá bom. E o carro, gostou dele?
Leo: Sim. De que ano é esse Fairlane?
Vito: 69.
Leo: Hummm... meu predileto!
Vito: É, hoje em dia ninguém mais gosta de coisa antiga, só quer saber de tecnologia.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Reciclo



Leo: Como é seu nome mesmo?
Almir: Almir!
Leo: Será que eu posso fazer um retrato seu Almir?
Almir: Pode sim, moço.
Leo: Mas pode terminar o trabalho aí, eu espero.
(2 minutos depois)
Almir: Mas porquê você quer me fotografar? Não prefere fotografar mulher bonita.
Leo: Ah, o que importa é a foto ser bonita, se é mulher ou homem tanto faz.
Almir: Então é que nem lixo... se é vidro ou papelão não interessa, o que importa é estar separadinho.
Leo: Falou e disse...

Caderno de Caligrafia


(encontro entre crianças e Ziraldo para o caderno Folhinha da Folha de SP deste domingo)
Criança 1: Tio, posso ver as fotos na câmera?
Leo: Pode sim, é só girar esse botão aqui que dá pra ver todas.
Criança 2: Tio, que foto é essa daqui?
Leo: Qual foto?
Criança 2: Esse muro aqui todo pixado...
Leo: Não é muro pixado, é um caderno de caligrafia urbano.
Criança 1: Mas não pode pixar na rua, é feio...
Professora: Isso mesmo Julinho, pixar é feio.
Leo: Feio é aula de análise sintática. Não tá vendo ali as linhas de sombra dos fios, fazendo do muro um caderno?
Criança 3: É parece um caderno mesmo. Mas quando eu desenhei na parede do meu qaurto, minha mãe me bateu.
Ziraldo: Mas essa mãe não sabe nada! Tem é que valorizar os dons de artista!
Leo: Exato, por isso que a rua é teu caderno de caligrafia. Da polícia se foge, de mãe não.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Juína/MT

O conflito entre fazendeiros e população indígena é uma alegoria à questão Palestina.
No caso, os brancos seriam judeus, pois chegaram em um terra que não era sua e constituíram um estado por força política e bélica. Deixa-se aos índios o papel de palestinos, justamente por serem uma minoria, sem representação política ou força militar.
No caso do oriente-médio ainda pode-se "defender" o estado de Israel usando um artifício devéras dúbio, a religiosidade. Diz-se, na religião da parte interessada, que aquele pedaço de terra lhes foi prometido por deus.
Aos índios ninguém prometeu nada.
Li que quando os colonizadores chegaram levou algum tempo para que os índios identificassem as caravelas, já que, sem pressupostos, não podiam ver o que nunca haviam visto. Uma cegueira igênua.
Menos ingênua é a cegueira dos fazendeiros de Juína, um município no norte do país, onde não há leis, nem racionalidade, muito menos homens de tele-encéfalo super desenvolvido, apenas polegares opositores que descobriram como manejar um gatilho.
O vídeo feito pelo Greenpeace mostra o momento em que cidadãos e impressa foram expulsos de uma cidade sem que lhes fosse feita qualquer acusação legítima e constitucional.
Pois bem, ao menos já sei por onde pode começar minha carreira como fotógrafo de guerra.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Prata da Casa

Do que não saiu na MOnica Bergamo:

"Enquanto deveria estar trabalhando, Leo Caobelli, 27 anos, fotógrafo, encontra Sérgio Castro, 27, motion designer e Rodrigo Marcondes, também 27 e também fotógrafo e decidem conferir o agito na Astronete."

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

gregor samsa

Acordou com o corpo doído após uma noite de sonhos intranquilos. Levantou-se, então, aos poucos pois era tudo que podia fazer. Pela janela entreaberta, a mesma luz turva da noite, entrava - embora já fosse a da manhã.
Viu na mesa de cabeçeira as sedas desenroladas e dois copos com resto de vermut descansando em cima de seu sonhário. Como a caneta estava ao lado, sabia que escrevera algo durante a noite. Era sempre tarefa difícil comprender as linhas que grafava em meio ao sono. Palavra por palavra, decifrava os sonhos que ora perturbavam, ora perturbavam mais.
"A linguagem é etérea - não há como, assim como náo há porquê explicá-la". A frase jazia com um recado escrito na transversal: "alguém gritou a frase enquanto eu tentava achar o disparador em uma máquina fotográfica de papel"

"Pra que porque?", sussurou a mesma voz.

Guardou os restos de seda e bebeu o pouco que sobrava de vermut. Viver necessitava tanto porque quanto seus sonhos.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

gol


menino: Você não subiu no Treme-treme esses dias?

Leo: Subi sim, como sabe?

menino: É que me lembro de você.

Leo: Tem certeza? Já faz um tempo.

menino: Sim, lembro das tatuagens e da barba... e depois fiquei te vendo pular a janela do primeiro andar também.

(silêncio)

menino: Minha mãe disse que você é louco.

Leo: E ela deve estar certa.

menino: Veio pra subir nele de novo?

Leo: Hoje não. Só vim ver se aquela entrada continua aberta.

menino: E continua?

Leo: Pois sim.

menino: Posso subir com você quando vier da próxima vez?

Leo: Só se eu puder te fotografar agora.

menino: Mas pode ser me escondendo atrás da bola?

Leo: Sim, eu sempre me escondo das fotos também... na verdade, não gosto de fotos.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

oxil:lixo


Hooder: Se liga nessa cidade Leo, que cor ela tem?

Leo: Acho que várias, mas to te entendendo, ela é meio monocromática...

Hooder: Exato, toda cinza, certo?

Leo: Às vezes com um azul no céu, mas predominantemente cinza.

Hooder: E tu acha a cidade boa, tipo, acolhedora, um lugar belo - ou uma metrópole do caos?

Leo: Acho que essa nem precisa de resposta...

Hooder: Daí eu piro nisso... claro que não exijo que ninguém veja o pixo como arte, porque não é mesmo! Já pensei em ser "artista", fazer graffitti, mas daí eu penso, porquê colorir uma cidade que não tem cor e não nos oferece nada além do caos? Logo, meu velho, onde houver fogo - que eu leve a gasolina!

domingo, 5 de agosto de 2007

ainda o lixo


Leo: - Moça, posso pegar aquela luminária que está na pilho de lixo?

Moça: - Não, não pode... é que tudo que entra aqui é pesado, pela prefeitura mesmo, não tem como tirar nada

Leo: - Entendi. Ah, mas se é por peso deve ser baratinho. Posso pagar o peso?

Moça: - Não, também não... porque é de reciclagem, né... Reciclar é importante.

Leo: - Ué, mas eu vou estar reciclando também. Era lixo, ia ser vendido por peso, pra ser destruído e reciclado. Eu vou reciclar usando como luminária mesmo, só que lá em casa.

Moça: - Mas é isso que não pode, porque reciclar é fazer virar outra coisa... e como eu disse, reciclar é muito importante.

terça-feira, 31 de julho de 2007

o incrível homem formiga





Minha mãe diz que poesia não enche a barriga,
Meu pai diz que minha música enche o saco
Você diz que minha foto tá fora de foco
Tudo pra que eu fique do tamanho de uma formiga

sobre a cobiça



Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!
(Charles Chaplin - O grande ditador)

domingo, 29 de julho de 2007

.



O cara saiu pra trabalhar pelo segundo final de semana consecutivo.
As costas já doíam...
O frio veio também atrasado, afinal, o cara já estava lá há dois anos e o minuano só agora resolvera aparecer.
Atravessou a São João olhando o relógio. Tinha 5 minutos para andar 4 quadras.
Um mendigo passou de bermuda, camiseta e sacos de pão nos braços fazendo as vezes de mangas longas...
O cara deu três passos, tirou a jaqueta, tirou o blusão, recolocou a jaqueta e foi atrás do mendigo.
Atravessando a São João, sentido oposto do trabalho, disse:
"ô meu velho, tá frio hj"
O mendigo continuou caminhando
"ó, pega essa blusa pra ti"
O mendigo continuou caminhando
O cara resolveu ir pra frente dele e oferecer o blusão
"Ó, isso aqui vai te aquecer, jão"
O mendigo parou, olhou pra ele e continuou caminhando

O cara voltou a seguir seu caminho sem entender muito. Não colocou o blusão de novo e sentia frio. Na porta do bar da esquina um caboclo de 50 e poucos ganhava a rua depois de longa madrugada... chorava, olhava para alguém ainda dentro do bar, apontava, tentava falar, soluçava e voltava a chorar...
O cara não costumava ver homem feito chorando, nem passando frio.
Chegou na porta do jornal abalado, em algum momento dos 20 minutos de trajeto, havia perdido o ponto de equilíbrio.

sábado, 28 de julho de 2007

as better as it gets



You hand in your ticket
And you go watch the geek
Who immediately walks up to you
When he hears you speak
And says, "How does it feel
To be such a freak?"
And you say, "Impossible"
As he hands you a bone

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Dos diálogos surreais



Saindo do miolo do Capão Redondo, após uma pauta sobre pessoas que perderam o olfato, seguiram-se diálogos trípticos como as fotos:
ato 1 -
Leo: E aí Zé, será que vai ser mais fácil sair daqui do que entrar?
Zé: Ah, acho que sim... Tenho uma manha, é só seguir o progresso
Leo: Como assim?
Zé: Eu vou olhando pra cima, achando poste de luz, fiação, até chegar no asfalto, nos prédios... progresso, entendeu?
5 minutos depois...
Leo: Aquele monte de fio, embolado no poste, com asfalto embaixo, é progresso?
Zé: Claro!
Leo: Não tem passarinho no progresso?
Zé: E pra que serve passarinho?
Leo: Nossa, pra tanta coisa... piar, voar... putz, nem sei dizer!
Zé: Vai dizer agora que queria florzinha também?
Leo: Claro!
Zé: Flor não serve pra nada! Só pra fazer bem-me quer...
Leo: Se fosse só pra isso eu tava ralado.
Zé: Por que?
Leo: Porque pra mim toda pétala é mal-me-quer
(silêncio)

ato 2 -
Zé: Melhor assim então, sem flor e com progresso
Leo: Bom lema pra bandeira... ao menos cai a ordem
Zé: Tu serviu o exército?
Leo: Não e cheguei atrasado no juramento da bandeira.
Zé: Ah, tá de brincadeira.
Leo: To não Zé... e no juramento ainda cruzei os dedos.
Zé: Mas então se o Brasil entrasse em guerra tu não pegaria nas armas?
Leo: Eu to em guerra há 27 anos, Zé...
Zé: Contra quem?
Leo: Contra tudo
Zé: E quem tá ganhado?
Leo: O nada.
(silêncio)

ato3 -
Zé: Mas agora fala sério, não é ruim ser assim amargurado? Não dá um vazio não?
Leo: Depende.
Zé: Ué, depende de quê?
Leo: Da hora, que horas são?
Zé: Meio dia e cinquenta e cinco
Leo: Então pára no próximo bar, a gente almoça e o vazio se vai.

ato 4 - desfecho
Zé: E esse aí que tu fotografou, não cheirava também?
Leo: Nem sentia gosto.
Zé: mas sabe que outro dia eu li na folha mesmo, que na França, um cara não tinha célebro e vivia bem.
Leo: Sem cérebro Zé????
Zé: na verdade ele tinha só as laterais no crânio... como carne de coco sabe?
Leo: Ah Zé... isso aí saiu no Agora, não na Folha...
Zé: Saiu na Folha Ciência... acho que eu tenho aqui.
(procura)
Zé: Aqui ó! Na folha dessa segunda!
Leo: Caramba! 71 de QI, 42 anos, casado e dois filhos!
Zé: Viu, eu não disse! E tu aí, achando a vida ruim e querendo florzinha
Leo: Pois é Zé, não ter cérebro pode ser uma dádiva!

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Tchê!




Tchê é uma expressão de tratamento unificante entre os povos gaúchos, sejam estes do rio grande do sul, uruguai ou argentina e significa algo como cara, moço, mas de uma forma muito carinhosa - já que é herança dos guaranis, onde quer dizer amigo.

Claro que por meus estrangeirismos múltiplos, sinto falta de tudo que nunca está onde estou - mas do tchê sinto uma falta um tanto maior... que vem dessa distância de onde nasci.

Ontem conheci Tiê, um apaulistamento de tchês. Meiga e querida, foi fotografada no jardim de sua casa. Despretensiosamente me falou sobre o ep que me entregou. Conversamos sobre a captação de áudio ambiente, da estética dos "mini-sons" e nos despedimos...

Na redação, enquanto editava as imagens que iriam para a Ilustrada de amanhã, coloquei o "e.p.1" para rodar (sugiro que todos façam o mesmo acessando: http://www.myspace.com/tiemusica) e digo sem rodeios, fiquei extasiado com o que ouvi! Em português, francês ou inglês - Tiê é sem dúvida minha maior descoberta musical do ano.

Descoberta tão casual quanto encontrar alguém que não se vê há tempos e deixar escapar um "-Tchê, que saudade!"


obs: Tiê é a parceira musical de Dudu Tsuda no Cabaret e mais sobre ela pode ser descoberto no site http://www.tiemusica.com/


obs 2: Ouça "passarinho" - sozinho, luzes apagadas e nos fones de ouvido... prazer garantido ou sua vida sem graça de volta.


obs3: Dica para os músicos. escutar a música acima da mesma forma, porém acompanhado de uma guitarra no colo para contribuir com mais "mini-sons" à canção.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Militando emoções




Nunca fotografei uma missa antes.
Uma com padres, monges, rabinos e militares então, pareceu-me uma cena digna de David Lynch...
Nem todas as emoções são sinceras em uma celebração desse tamanho. Os textos que se publicam, podem ser menos sinceros ainda...

domingo, 22 de julho de 2007

Esquecer e querer ver

Das coisas curiosas que te passam pela frente, ficam registro. Quando não são meramente mentais, são captados por uma objetiva, especialmente se esse for o teu trabalho.
Elisié Pedrosa quer esquecer a tragédia com o vôo da TAM. Nele estava seu único filho Gabriel Correia Pedrosa Jr. Me mostrou uma foto dele e disse que daqui não levaria nada do filho e isso que doía mais.



Já para muitos paulistanos, ir ao local do desastre foi o programa dominical. Famílias inteiras vieram das partes mais remotas da cidade. A curiosidade as trouxe e sei lá qual outro sentimento as fez ficar. A barraquinha de cachorro-quente vendeu bem, assim como o café, os refrigerantes...
E a vida segue, mesmo pra quem não tem como seguir



I´m the wrong kind of person to be realy big and famous


what´s the point of playing a song badly?

...









sexta-feira, 13 de julho de 2007

Tremendo






Embora ainda queira fazer um suspense com o resultado das minhas duas semanas de férias, não consegui atualizar o sobrou com outras fotos que não fossem essas duas.


Duas ilustram a "invasão" de sábado ao treme-treme, também conhecido pela alcunha de edifício São Vito. O prédio fica atrás do Mercado Público e já abrigou mais de 3.000 moradores, embora se encontre desocupado há mais de 2 anos. São 27 andares, com 624 quitinetes e mais a escadinha do lado de fora para se chegar ao 28° e encontrar a caixa d´água tomada por uma imensa cabeça dos Gêmeos. (prometo fotos da cabeça quando for postar mais imagens desse projeto).


A terceira foto, noturna, marca o início de uma sessão de quinta, logo depois do encontro no point da Galeria Olido. O rolê incluiu passagens pela República e Santa Cecília antes de subir o Minhocão. A foto registra a caminhada inicial, em busca das telas urbanas a serem riscadas.

O projeto de registrar o pixo vai seguindo, sem data para acabar, mas com uma sessão marcada pra este sábado.


Que venha a Cohab Artur Alvim e os trens da estação Ipiranga!

quinta-feira, 5 de julho de 2007

oitavo



Enquanto o corpo caía, do oitavo andar, nem parecia ser meu

Talvez fosse a sensação de não ter peso... primeira vez.

percebí isso quase na janela do sétimo... solta.


O sexto me foi um convite a abrir os olhos...

é mais fácil pular de olhos fechados


No quinto, abri... e era linda a vista do céu que se afastava

é mais prático pular de costas


o quarto, já era metade de minha despedida

pensei em virar para olhar de frente a quem me assistia

mas as nuves estavam lindas no meu último dia


do terceiro já nem sei,

foi o andar breve de um suspiro


no segundo senti uma certa culpa

era tão simpática a dona gracinda

que naquela idade não merecia estar chorando na janela


no primeiro, olhei gracinda e ri

acabou o choro

acabou a culpa


Encontrei meu térreo como quem encontra a cama macia,

recém feita

e deixe-me deitar

nunca tive sonhos tão bons...

terça-feira, 3 de julho de 2007


Phedra de Cordoba normalmente já pararia o trânsito. Às vésperas da 11° parada do orgulho gay então, a Avenida Paulista realmente parou para vê-la desfilar. A luz estava linda. Dois sóis se descortinavam deixando o calçamento de pedras portuguesas digno dos tijolos dourados de OZ. Phedra acenava para a multidão que gritava e assobiava enquanto esperava sua vez de atravessar em frente ao conjunto nacional.
Enquanto clicava, vi claramente em meu visor quando uma das fotos se destacou... tinha um quê de estátua da liberdade, dava glória ao movimento GLBT em meio ao palco de sua Paulicéia Desvairada. Phedra também sabia que a sessão tinha sido mágica e adorou ao ouvir que naquela tarde havia feito um dos retratos mais bonitos de minha curta carreira.



Já Facundo, representava o S, da antiga sigla GLS - hoje GLBT. No vão livre do MASP fotografamos numa quarta-feira, dia em que a visitação ao museu se destina a escolas do estado. O vão livre sempre me traz boas memórias, enfim, é um dos melhores lugares para se fumar em São Paulo sem ser inportunado pela PM. Logo que cheguei lembrei porque não ia nas quartas-feiras... Não é que eu não goste de crianças, mas elas falam demais, alto demais e andam em número demais em grupos demais. Adicione a estes fatores o coeficiente galo. Sim, inspirados em uam clássica foto de Salvador Dali, Facundo teria um galináceo em seu ombro. Em certo momento, o galo decide que não iria mais participar da festa, salta - não antes de ficar belo no clique exato. Corre pelo vão livre atraindo milhares de crianças em sua caçada. Quem viu o filme dos trapalhões na sessão da tarde onde Didi e companhia correm atrás de galos para treinar o bom futebol, podem ter um leve visão da cena. Mas claro, as crianças eram muitas, faziam barulho e o galo se assustava. "Voou" até o parapeito do Masp, olhou pra baixo - cheguei a pensar em quantos minutos duraria um galo solto perto da paulista e antes de conseguir um numeral, o galináceo baixou a crista e resolveu voltar. Fizemos mais algumas fotos, mas a do pulo certamente foi a melhor do dia.

O que não arde, queima.



Leo: - Pedro, posso te fotografar trabalhando?
Pedro: - Mas assim, roupa suja?
Leo: - Ué, mas não é tua roupa de trabalho?
Pedro: - Que é, é... mas...
Leo: - Mas o quê?
Pedro: - Mas eu não entendo fotógrafo de hoje em dia. Meu vô tinha uma câmera e cada vez que colocava filme nela, só fotografava a gente quando estávamos de banho tomado e roupa boa...

silêncio

Leo: - Mas é que nessa não vai filme, é digital!
Pedro: - Ah, então aí pode né...

domingo, 24 de junho de 2007

Kassa o Kassab!


Sr. prefeito:
Cidade limpa não significa extingüir os melhores murais de grafiti da cidade.
Aplaudi de pé à sua decisão de remover e padronizar a publicidade de rua, embora saiba que o verdadeiro motivo para tal atitude tenha sido a falta de arrecadação municipal com estes anúncios, uma vez que mais da metade desta publicidade era ilegal. Ficará bem mais fácil destingüir, agora, quem está "fora da lei".
Causa repúdia, entretanto, ver que artistas internacionalmente reconhecidos, são banidos de suas próprias cidades ou pela ignorância de vossa senhoria, ou por simples falta de intelecto. Não me estenderei no assunto, uma vez que o colega João Wainer o fez muito bem em artigo artigo publicado na revista da Folha deste domingo e incluído em seu blog pessoal. (A sugestão da leitura vale para todos, eleitores ou não).
Para vossa "autoridade" tenho apenas um adjetivo:
VAGABUNDO!!!!!!!!!! VAGABUNDO!!!!!!!!!!!
VAGABUNDO!!!!!!!!!! VAGABUNDO!!!!!!!!!!!

sábado, 23 de junho de 2007

PIXO VANDAL ART!

Finalmente consegui convencer alguém de uma pauta boa.
Se tudo der certo, quinta-feira à noite vou estar na galeria Olido fazendo os contatos necessário pra acompanhar algumas grifes e crews pelas noites de SP.
Subindo prédio, correndo da PM, entrando nos trilhos do trem... tudo que for preciso pra registrar a linguagem mais autoral que SP já produziu: o pixo!
Falem o que quiserem, mas pago pau pra quem tem a manha de subir 20 metros de prédio pelo lado de fora e pintar letras com mais de dois metros de altura!
Assim que começar, posto algumas fotos por aqui.
Por enquanto fica a dica de um ótimo documentário sobre o tema:
Inside Outside

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Trabalho e estudo


Há exatos 29 dias topei com esse senhor retratado em um depósito de ferro para triagem. Explico: depósito de ferro para triagem é pra onde vai o "crème brûlée" dos ferro-velhos. Lá se separa alumínio, cobre e demais metais recicláveis de valor.
Por um lapso de memória fugiu-me o nome desse incrível personagem que me confessou uma ótima verdade. Ao falarmos sobre trabalho, disse ele:
"Pois, você mesmo, deve ter estudado um monte, gasto um bocado de dinheiro pra aprender a fotografar, escrever... e pra quê? Tirar mil e poucos, dois mil por mês! Tenho uma filha que tá nessa de se formar, tentar emprego... trabalha mais que o patrão e nem mil por mês ela tira. Eu não. Não servia pra estudar, descolei um trator... sei operar tudo quanto é máquina. Chego aqui a hora que quero, entro madrugada a dentro... cato meu lixo e ganho mais que minha filha e nem precisei estudar um monte pra isso. Vestibular é piada!"
Em julho volto a fotografá-lo e prometo registrar o nome, já que sou péssimo para guardá-los.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Embaraços



Clichês sempre me irritam...

O mundo anda cheio deles e parece que se multiplicam mais que coelho no cio!

São tão ruins, para mim, os tais de clichês que são capazes de estragar um filme que seria ótimo, não fosse aquela música, naquele momento, depois daquela fala e que deixou tudo assim... tão clichê!

E as pessoas gostam tanto disso, da emoção "descomedida", da adoção de novos dogmas quase exotéricos... como a nova-velha máxima da validade de todo e qualquer encontro. Essa coisa da abolição do acaso, sabe?

Teu caminho cruza o de alguém, vocês convivem por algum tempo e, por mais que o resultado desse encontro seja a falência dos "valores morais" e decadência pessoal, dá-se sempre um jeito de ver valor em tudo... "foi o que me fez ver a importância de blábláblá"... ou "depois daquilo, consegui a força que precisava para me reeguer"... Calma lá, mas se aquilo não tivesse acontecido, tu não teria caído e nem precisaria se reerguer, certo?

Errado, preferem ver tudo pelo "acertismo", já diria Lair Ribeiro!

E todos esses andam na trupe dos que não mudariam nada.

"Se pudesse voltar no tempo, não mudaria nada do que fiz, pois foram elas que me trouxeram até aqui".

Fuck!

Eu mudaria um monte de coisas, teria deixado de ficar com umas 3 minas, de ter feito uns 6 "amigos", de ter embarcado em 2 empregos, de ter escrito quase todas aquelas músicas, de ter feito umas várias fotos! Isso sim é aprendizado... ok, já fiz merda, já entendi. Posso voltar e mudar um monte de coisas? Ótimo, não perco a chance!

Quem quer mudar as coisas, encontre-me no DeLorean!

sexta-feira, 8 de junho de 2007

E nos movíamos...


Estávamos maravilhados,
deixávamos a confusão e
o absurdo para trás, e exe-
cutávamos a única função
nobre de nossa época: man-
ter-se em movimento.
E nos movíamos.
...
"On the road"
Jack Kerouac